O que diabos estou fazendo da minha vida?

É a pergunta mais comum e frequente que me faço. Não por insatisfação, mais pra ter certeza de que estou onde gostaria de estar e se estou indo pra algum lugar que eu não me arrependa no futuro. Sempre tive medo de um dia acordar com 30 anos e pensar: “Parece que foi ontem que eu tinha 22 anos, a vida passou e eu nem vi”. Esse é o meu maior pesadelo e me dá calafrios quando ouço maldições desse tipo saindo da boca de outras pessoas. É a pergunta que me faz olhar em volta, observar as pessoas, observar minha rotina e concluir se de fato, estou vivendo o que gostaria de viver.

Olho pra minha vida e percebo que, dentro dos padrões socialmente aceitáveis (sem muito ferir a moral e os bons costumes), tenho ido bem até aqui. Acabo de me formar com méritos no curso que escolhi fazer (por amor à profissão e não por dinheiro), numa faculdade renomada (e cara!) que eu não paguei por ser bolsista. Trabalhei na área de Relações Públicas desde o primeiro ano da faculdade e, em 2012, consegui o tão sonhado emprego numa multinacional. Tenho muito orgulho do caminho que trilhei até este ponto. Todas as coisas que aprendi e experiências que vivenciei me dão a certeza de que, eu estive onde deveria ter estado.

Acontece que nessa ultima fase, trabalhando na multinacional, pude rever uma série de variáveis e refletir se, aquele estilo de vida realmente era compatível com meus sonhos.

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Eu simplesmente amava meu trabalho, sempre levantava feliz da vida pra ir e não me importava com a hora que sairia de lá. Era um ambiente inspirador e eu estava extremamente feliz e realizada. Mesmo assim, todos os dias, me perguntava “O que diabos estou fazendo da minha vida?”. E fazia isso mais por hábito que por insatisfação. Sempre achei que estar feliz é um status bastante perigoso e enganador. Felicidade acomoda. Faz com que você deixe de querer algo além porque está bom do jeito que está. E naquele momento, estava ótimo como estava.

A vida numa empresa de grande porte pode ser um tanto quanto tentadora e confortável. Cria a ilusão de que você não precisa mais ir a lugar algum. Você tem seu generoso salário (o meu era ótimo), tem uma lista de benefícios e regalias, além da credibilidade e facilidades externas (estabilidade financeira, margem de crédito, descontos e mais aquele monte de coisa que nossa cultura capitalista nos empurra goela abaixo e a gente adora).

Eu olhava para as pessoas no escritório, algumas com mais de 10 anos de casa, que estavam felizes da vida construindo suas casas, comprando carro. Pessoas que viajavam nas férias e pagavam religiosamente carnês das Casas Bahia em dia, e ainda tinham grana pra fazer churrasco de fim de semana com a família ou pra pagar uma comanda cara na noitada. Me parecia um bom plano a ser seguido: Tinham se estabilizado profissionalmente e haviam conquistado muitas coisas no processo. De um ponto de vista econômico, continuavam crescendo. Tinha encontrado a fórmula do sucesso. Quem não quer algo assim?

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Até que tive a conversa que mudou minha vida. Certo dia estava almoçando com uma colega de trabalho (budista e minha amiga pra vida toda) num restaurante japonês e falava das minhas inquietudes da alma e essa minha vontade de sempre querer ir pra algum lugar diferente do que eu estava. E então ela me disse:

– Se você quer mesmo ir, faça acontecer. Planeje e vá, porque essa é a hora! Eu mesma queria muito poder ir para o Japão. Hoje, embora tenha as condições pra ir, não posso sair daqui.

– Não pode, porque?

– Porque agora eu não posso simplesmente deixar tudo e ir entende? Tenho família, responsabilidades, minha casa… Mas quando olho pra trás, quando tinha a sua idade, penso que se alguém tivesse me dado o conselho que estou te dando agora, minha vida teria sido completamente diferente. Se você tiver uma mínima oportunidade de ir, vá e se realize por nós duas.

Então eu entendi algo que já havia lido no Clube da Luta, certa vez.  As coisas que você possui acabam possuindo você. Você compra móveis. E pensa, este é o ultimo sofá que vou precisar na vida. Você compra o sofá e fica satisfeito durante uns dois anos porque, aconteça o que acontecer, ao menos a parte de ter um sofá já está resolvida. Depois precisa do aparelho de jantar certo. Depois da cama perfeita. De cortinas. E do tapete. Então fica preso em seu belo ninho e as coisas que costumavam ser suas, agora mandam em você.”

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E aí me dei conta da cilada (Bino!) da confortável vida que eu levava. Do ponto de vista econômico, meus colegas de trabalho continuavam crescendo, mas do ponto de vista existencial, a vida deles diminuíam numa medida inversamente proporcional. Se tornavam cada vez mais apáticos, parecidos uns com os outros, com as mesmas preocupações, mesmos motivos, literalmente, a mesma vida com pequenas variações sintomáticas.  Acumulavam cada vez mais coisas e esperavam cada vez menos da vida. Ganhavam muito e se realizavam pouco. E quem sou eu pra julgar? Cada qual deve seguir o caminho que melhor lhe convir, o que melhor lhe bastar, o que mais lhe fizer feliz. A questão é que eu passei a olhar para tudo aquilo, e constantemente me perguntava se eu conseguia me ver ali, 10 anos depois.

A resposta era sempre a mesma: Não. Eu não me via. Na verdade, eu me desesperava só de imaginar passar mais dois anos no mesmo lugar.

O que me tranquilizava é que por ter um contrato por tempo determinado, minha saída desse trabalho já estava planejada. E com saída, eu teria então a liberdade para pensar com cuidado no que eu realmente queria pra mim, antes de querer me estabilizar, criar raízes, antes de querer ganhar rios de dinheiro e acumular coisas materiais. Não precisei de muito tempo para descobrir que a resposta era ao mesmo tempo simples e não tão fácil:

Eu queria viver no mundo e voltar pra casa de vez em quando.

Então, a próxima pergunta foi: Como conseguir isso? A resposta, meus amigos, conto no próximo episódio.

“Saia do seu apartamento. Encontre uma pessoa do sexo oposto. Pare com a compra e a masturbação excessiva. Peça demissão. Comece uma luta. Prove que você está vivo. Se você não for atrás da sua humanidade, você vira uma estatística.” Chuck Palahniuck – Clube da Luta.

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Um pensamento sobre “O que diabos estou fazendo da minha vida?

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