Ser feliz sozinho é o melhor que tá tendo…

Certa vez, em meados de 2013, eu li sobre o restaurante Eenmaal na Holanda (o nome significa ‘uma vez’ ou ‘uma refeição’ em holandês) que possui um conceito de design com mesas individuais para pessoas que saem pra jantar sozinhas.  Num primeiro momento, achei a ideia meio triste, um reflexo doentio dessa sociedade cada vez mais individualista, concluí. Mas ao pensar melhor sobre o assunto, percebi que era uma ideia genial. Claro, é uma delícia sair para jantar com uma ou mais pessoas, mas o fato de não ter ninguém disponível pra sair, não deveria impedir as pessoas de terem uma ótima refeição sozinha, por exemplo. Afinal, segundo as palavras de um cara aleatório com quem conversei ontem à noite:

 “Ser feliz sozinho é o melhor que tá tendo”.

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Mas foi ao pensar sobre o restaurante holandês que me dei conta de que nunca havia saído sozinha, de fato. Sempre fui à livrarias e ao cinema sozinha, mas nunca tinha tido um encontro comigo mesma, com cerveja, música ao vivo e solidão. Na época, estava lendo meu primeiro livro do sociólogo Bauman, Amor Líquido, que falava exatamente sobre a fragilidade dos laços humanos. “Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”. E então decidi experimentar a sensação de sair sozinha e ver como me sentiria a respeito.

Escolhi um dia em que tinha opções sociais mais interessantes e descartei todas em prol do meu novo experimento social no qual eu me usaria como cobaia. E devo dizer que a primeira vez foi horrível. Me senti muito desconfortável com o fato de estar sozinha, de beber sozinha e com a ideia de que todo mundo no bar parecia estar olhando pra “pobre moça ali sozinha que provavelmente levou cano no encontro”. Comecei a ficar chateada e percebi que estava sendo uma péssima companhia pra mim mesma, não conseguia me entreter com nada. Nem com a conversa na mesa do lado, nem com a música. Aguentei firme por uma hora e três chopps e fui pra casa me sentindo arrasada.

Tivera um encontro comigo mesma e foi o pior encontro da minha vida.

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Fiquei assustada com a dificuldade de relaxar e curtir o momento. Achei essa sensação de não conseguir me suportar sozinha muito errada. E quis mudar isso. Então por mais desconfortável que pudesse me sentir com a situação, continuei saindo sozinha e elevando o nível de dificuldade, fui pra balada sozinha, pra restaurante típico de casalzinho apaixonado, decidi viajar e passei 7 dias pegando carona na estrada, sozinha. Investi pesado no meu relacionamento comigo mesma. Até que a ideia de sair sozinha não me parecia aterradora, pelo contrário, era sempre uma ótima ideia poder ficar mais quieta e observar o que acontecia ao meu redor. Não me entendam mal. Eu sou louca pelos meus amigos e amo estar com eles sempre que possível. Mas aprendi a ser companhia pra mim mesma quando necessário e ficar sozinha, às vezes, me parece essencial.

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Ontem mesmo, queria muito ver uma banda tocar, mas meus amigos não estavam disponíveis. O show por outro lado, sim. Então eu fui. Uma coisa que aprendi com essas experiências de sair sozinha é que, as coisas mais improváveis acontecem quando se está sozinho e que não aconteceriam se você estivesse distraído com um grupo de amigos. E a noite de ontem, foi sem dúvida, uma das mais interessantes da minha vida.

Logo quando cheguei ao local do show, uma moça se aproximou e ao responder sua pergunta: “Você veio sozinha?” com um Sim, ela acrescentou: “Nossa, você é louca”. Em retribuição, dei o sorriso mais louco que pude. Porque pra mim, loucura mesmo é deixar de viver o que se quer por não ter alguém que te acompanhe. Loucura é deixar a vida escorrer por entre os dedos por não ter coragem de sair de casa e encarar o mundo sozinho.

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Por fim acabei encontrando um cara que também estava sozinho e que supostamente era tão louco quanto eu. Conversamos antes do show e depois fiquei observando enquanto ele pulava, agitava e se divertia sozinho durante as músicas. Ele era louco, sim. Era louco por si mesmo e estava entregue ao que sentia. Achei tão incrível que não quis estragar o momento e fui pro outro lado. Curti o show na minha, sorrindo por causa das cervejas e feliz da vida por estar ali.

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Uma menina que conheci no carnaval em Minas acabou esbarrando comigo lá dentro. Ficamos conversando e fui apresentada aos seus amigos: Um professor de filosofia e história que discutiu o Mito da Caverna e a República de Platão comigo por um bom tempo (porque a gente fica mais culto quando bebe, alguém explica?) e um guri muito engraçado e sarcástico que mais parecia o gato de Cheshire de Alice no País das Maravilhas.  Passei o resto da noite com eles e quando o show acabou, decidiram ir pra outro lugar e me convidaram pra ir junto.

Outra coisa muito boa de sair sozinho é poder fazer o que der na telha e mudar de planos sem muito drama. É só decidir, confiar e fazer. Eu decidi, confiei e fui com eles.

Fui parar num cover do Iron Maiden, banda que eu conheço mais pelo nome do que pelas músicas.  Acabei me perdendo do gato de Cheshire, do filósofo e da louca do carnaval. Estava sozinha de novo. E dessa vez, estava sozinha num lugar aleatório, com música que eu não conhecia e rodeada de pessoas estranhas. Triste né? Nada.

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Eu estava muito satisfeita e feliz. Estava tendo meu jantar no Eenmaal holandês. Estava aproveitando um momento que eu nunca tinha imaginado que iria viver naquela noite. Estava curtindo o inesperado. Sozinha sim. No fim do show, a louca do carnaval me encontrou de novo e junto com o gato de Cheshire e o filósofo, me deram uma carona pra casa. Me senti no filme “Meia Noite em Paris”, obra do Woody Allen e tive que concordar com o cara aleatório com quem havia conversado mais cedo naquela noite:

Ser feliz sozinho é o melhor que tá tendo.

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