Sobre querer estar só

Aquela velha história mais clichê de amores que não podem acontecer.  Ás vezes nem chega a ser amor, uma paixonite aguda, algo platônico, mas que também não acontece. É curioso a forma como nós seres humanos temos o raro dom de complicar a vida. Somente viver, deixar rolar, não é o bastante. Precisamos delimitar territórios mentalmente, nos esquivar das possibilidades, evitar nos entregar mais de alma que de corpo. Na tentativa de simplificar sentimentos e enaltecer a razão, perdemos aquilo de mais especial que nos diferencia dos outros seres: conexão.

Tudo isso porque temos medo do passado. Sim, aquela lembrança doentia que  fere de forma aguda todos os dias, gela o coração com os detalhes mais simples, açoita a alma com os piores pensamentos e impressões. É o que bloqueia. Não quero bancar a terapeuta ou psicanalista. Falo porque já sofri do mesmo mal, aliás, sofro ainda, porque é incurável. Já amei e desamei tantas vezes que penso ser incurável o desejo do não mais sofrer, não mais se apaixonar, não mais viver e se impedir inconscientemente de ser feliz.

Além de medo, também temos a mania de querer controlar o incontrolável. Tentamos por rédeas no coração, blindamos nosso corpo, construímos uma arredoma. Mas nada disso é capaz de mudar um fator externo, o argumento mais forte, a arma menos limpa: Não somos ilhas. Não estamos sozinhos. Não somos ímpares. E infelizmente não estamos no controle de muitas coisas, uma delas é a maneira como certas pessoas nos afetam, como nos tocam, nos fazem sentir.

Eu sei, é uma droga tudo isso. É uma droga não querer e ainda assim estar envolvido. É um porre não ser dono de si mesmo. Mas cedo ou tarde acabamos descobrindo que a vida tem um jeito muito peculiar de ajeitar as coisas, e que sofrer por isso é besteira.

Portanto, se quiser construa sua barricada, coloque sua armadura, se arme com o melhor que puder e esteja vigilante. Quando menos se esperar, chegará no seu território alguém vestido das coisas que você mais teme e ama, estará armado com argumentos que se esquivam da sua defesa, invadirá sua vida, causando estrago da maneira mais doce que um estrago pode ser. E aí, quando o território por tanto tempo protegido não estiver mais sob o teu domínio, descobrirá que perdeu a guerra, em contraponto, ganhará alguém que te livrará da solidão e de todo o caos. O resto? A vida se encarrega de dar um jeito.

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3 pensamentos sobre “Sobre querer estar só

  1. Para esse tipo de coisa, não importa se vc se protege atrás de um simples bunker de sacos de areia ou uma barricada metálica reforçada… algo pequeno consegue atravessar os pequenos vãos deixados nessa proteção e, se a coisa encontrar alimento, pode crescer…

    complicado, como quase tudo na vida u.u

    adorei o texto!

  2. É aquela coisa… a vida é uma caixinha de suspresas principalmente nesse tipo de coisa. A gente nunca sabe de onde vem o tiro, nunca sabe se vai passar raspando ou se alojar do lado de algum órgão vital… o.o
    A gente não quer se envolver, e se envolve. A gente pensa que é imune a todo tipo de pessoa, sedução ou sentimento e quando se percebe lá estamos desenhando coraçõezinhos nos troncos de àrvores… u.u
    Mas acho que é assim que somos… E assim que vivemos!

    Adorei o post… adorei cada frase. Beijão!

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